Não se engane, caro velejante

Quando o guerreiro dos mares pensara que os dias tempestuosos passaram, acreditava ser suficiente ter sua amada envolta em seus braços, uma onde gigante se aproximava de seu barco. É claro que ter a sua bússola cravada no peito dela o ajudaria a enfrentar todos os demônios que aquelas águas traziam, e é mais evidente que os anos velejando em alto mar deram a ele certas experiências que qualquer novato não teria. Mas, nenhuma turbulação é igual a outra, e seria um ledo engano achar que um oceano seria eternamente pacífico.

Ondas negras agitavam ao redor do convés de sua embarcação, raios iluminavam a noite escura que as nuvens pesadas com chuvas traziam. Diante de tal tempestade, a experiência e a sensação de ter o mundo nas mãos daquele jovem casal guiavam o manche em direção ao perigo eminente que se aproximava. O velejante, então, agarrando a mão de sua mulher, desencora o barco e aceita que é impossível desviar daquela escuridão que vinha em seu encontro. Mas acredita piamente que qualquer demônio que aquela tempestade trará, em algum momento de sua frágil vida irá passar. Afinal, nenhum capitão abandona seu barco e ele não será um homem ao mar.

In The End

Houve um lampejo, coisa que poderia ser chamada de “um momento de clareza”. A gente se atira, se precipita e quando caímos de cara na piscina vazia surge a luz e a escuridão intrinsecamente ligadas para nos dar a clareza que tanto buscamos. O erro desta história são as alegrias violentas. Há um ledo engano em achar que qualquer um seria o guerreiro que arrancaria o coração alheio só para te proteger. As palavras profetizadas não passam de mantras onde o único seguidor é aquele que as diz, e nem esse próprio ser são fiéis a elas. Só a enganação, o egoísmo, o egocentrismo são suas cartas na mesa. O seu jogo é satisfazer somente a própria oração, enaltecendo seus únicos desejos primitivos em usar outros para tapar o buraco deixado por outrem. O propósito desta carta não é o possível destinatário, mas um lamento final para poder finalmente riscar da agenda (da mente) aquele número surrado, podendo ser encontrado nas primeiras folhas.

“Eu só queria ter paz, e alguém para ir a guerra me ajudar a lutar.”

A vida de um Homem

De tanto ele entregar o coração, sobra em seu peito resquícios de algo que um dia bateu e pulsou toda a força de vida para o resto do corpo. Hoje ele não passa de mais um. Depois de sua última decepção, já desistiu de recompor a muralha em seu peito pois todas as incontáveis vezes, algo explodia e as migalhas se desfarinhavam. Sim, ele não nega que obtivera ajuda para construir um novo “Eu”. Mas sempre que agarrava com toda a sua força vital essa nova mão, a vida dava um jeitinho de puxar seu tapete e ela o abandonava sem ver a primavera florescer na sua vida. Hoje ele vive em um eterno inverno, e vê todas as suas emoções congelar com a força de negativos graus Celsius. Já não busca mais a era tropical, e leva a vida de bar em bar tentando preencher o vazio que traz em seu peito. Traz consigo uma tentativa de amnésia, para esquecer os períodos de flores e calor que houvera em sua vida. Hoje vive da sobra de bilhetes e cartas rasgadas em cima da mesa de um bar. Nunca sabe que horas são, que dia é ou que planeta está. Mantém a mente anestesiada de todas as maneiras que encontra, tudo para não reviver um amor falido. E isso é seguir em frente?

 

Primeira Pessoa do Singular.

É liberdade? Repressão? Solidão? Não posso ser quem sou, ser quem quero ou seguir o caminho que me convém. Há barreiras que não consigo quebrar, e se eu quebrar? Perderei tanto e provavelmente não conseguirei sobreviver. São barreiras que moldam minha vida, são meus muros e destruí-los seria uma mudança tão grande que não saberei lidar. Eu não sei lidar.

É solidão? É solidão? Sei que ela me invade, me nutri e me mantém consciente (inconsciente). Minhas entranhas estão fardadas pelo vazio, são peças do meu motor que me faz querer viver ou morrer. Não consigo ser o que querem, não consigo ser quem sou. Provam-me, cada vez mais, o quão substituível é minha existência. Não encontro paz e a vida se torna cíclica, com meios de ternura, medo, ódio e desespero. É doce a minha solidão. Não sei se é liberdade ou repressão. Só sei que a sinto, apegada a mim e presa na minha pele. Eu sinto. Eu.

As Terças se Inverteram

E eu não consigo pronunciar as letras de seu nome. No lugar da esperança, da paz e felicidade se deu lugar ao desgosto, decepção e ira. Eu cai no chão, não encontrei fundamentos em suas palavras e gestos para me tirar do abismo. Descobriu a formula para minha solidão, e com o rascunho fez uma bela bola de papel e atirou em cheio no lixo. Não encontrei nexo causal em seu crime, e não quero achar. A falta de honestidade se escondeu atrás do misto da cor de seus olhos, e nessa admiração quase mística eu me perdi sem ver as terríveis consequências que estava prestes a explodir nos meus ombros. Contemplei tanto os seus mistérios, que esqueci de manter a consciência e abandonei todos os anos de prática em decepções, não conseguindo ver a magnitude da super nova que explodia em seu coração. Mergulhei em uma turbulência e me afoguei no mar negro, sem farol, sem baia e sem previsão de céu azul. Eu quero um dia de sol, uma vida de sol. Sua alma não está preparada para essa paz, pelo menos até entender o que quer escrever em seus livros. Lembre-se: não dá pra queimar a biblioteca da memória. Mas te peço para esquecer, guardar no fundo e deixar as nossas páginas empoeirar e envelhecer. Vai, mas não olhe para trás sob pena de não mais me encontrar aqui. Vai, e leve seus mistérios consigo.

Quem te escreveu assim?

Olhos de Ressaca

Você tem o poder de me derrubar com o olhar, e foi com eles que eu descobri como Dom Casmurro se sentia quando mirava os olhos de ressaca de Capitu. Seus olhos também me trazem um fluido misterioso e enérgico, eles tem uma força sobrenatural que me arrastam para dentro e como Casmurro fazia, eu me agarro aos seus braços e cabelos espalhados para não ser tragado para dentro de seus enormes olhos, e nem ao certo sei diferenciar a cor, as vezes me parece verde e outras de um castanho profundo. Eles crescem por cima de mim e suas pupilas me cavam, me ameaçam e puxam-me para dentro de sua baia misteriosa. São de cores e doçuras extraordinárias. Não encontro razões e palavras para dizer como é contempla-los de perto, nada que me vem na mente me parece capaz para que eu consiga expressar o que eles são e o que fizeram com minha vida. Cada risco de cor que vejo em seus olhos fazem com que eu perca o sentido e em cada linha eu me trago, crio um destino novo, desisto de velhos hábitos, esqueço dores e angústias e por eles me arriscaria. Seus olhos se confundem com os lábios, e em meio há tanto mistério e sedução, perco o que resta do viés de sanidade em minha mente. Nesse jogo de imagens, eu poderia  dizer ao mundo que eu morreria facilmente em seus braços. Mas não por dor e sofrimento, e sim porque o toque suave de sua pele, o sorriso enigmático que expressa e os eternos olhos dissimulados que me cercam por todos os ângulos me fazem ter vontade de me agarrar aos seus cabelos e contempla-los definitivamente pela eternidade.

Resistir

A escrita é sobre a dor, porque com ela não sei lidar. Textos felizes e motivadores, aqui não haverá. Pois é mais fácil falar do amor, do que da cicatriz, é mais fácil ver a rosa do que os espinhos. Não que o rancor me acompanhe em todos os dias de minha vida mas quando tudo ameaça explodir, temo que o teto do mundo desabe sobre minha cabeça. Quando me perco em pensamentos, quando nem a música consegue salvar minha alma, eu recorro as palavras para amenizar a dor. Olho dentro de mim mesmo e vejo um enorme buraco onde deveria haver um coração pulsante, um buraco que está fadado a existir pelo o resto de minha frágil existência. Todo o luto, o pranto, a dor, a mágoa e a raiva reside nesse peito que já há algum tempo está em ruínas. Mas de todos eles, o que anda abrindo mais feridas em carne viva é a raiva e a mágoa. Talvez por tanto procurar por perdão, talvez por tanto procurar conforto no lugar errado. Não existe paz bem aqui, dentro de mim. As vezes eu só quero desistir, colocar os sonhos no bolso e deitar em posição fetal para tentar sonhar com quimeras e devaneios – coisas que só encontro dentro do subconsciente- mas, de nada adianta turvar a visão, buscando o intangível se toda a lágrima queima como ácido para trazer-me de volta a realidade. Mas de tudo, eu só procuro pela verdade. Porque ela me levará a paz e, consequentemente, a felicidade. Então me diga, qual é a verdade que reside em seu coração?

“Eu não acredito nas palavras, acredito nos fatos
Nas coisas e nas respostas
E então o que é o perdão se não um produto sem justificativa?
E isso tudo é só um símbolo de que o passado não importa mais
E por isso eu não devia calar o meu pranto
Essa lâmina continua afiada
E era eu que ainda não tinha observado
Tentando superar o mau gosto do meu sangue
E as lágrimas assim vão sendo confiscadas
Tudo através do produto que continuam estagnadas nas pontas dos meus dedos
E as minhas mãos não são capazes de superar o medo
E não conseguem ver que a vida continua
Sem esquecer, sem relevar, sem perdoar”